Relato da primeira série de palestras da Conferência de Boston mostra que pesquisas avançam em direção à um medicamento para Kleefstra

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Aqui está a 2a parte do relato da Caroline, mãe da Larissa com Síndrome de Kleefstra, que foi até Boston para participar da Conferência promovida pela Genespark.org.

Introdução

Continuando meu relato sobre o congresso, quero contar um pouco para vocês sobre as palestras que assistimos no sábado de manhã.

Friso, no entanto, que não sou da área de saúde de forma que meu entendimento e reprodução do conteúdo técnico está sujeito a equívocos. Fico à total disposição se quiserem entrar em contato para esclarecer ou corrigir algum conteúdo, caso seja necessário.

As palestras foram iniciadas depois de um café da manhã na sala onde seria a convenção e depois de encaminharem as crianças para a recreação que foi organizada para acontecer nas salas ao lado, de acordo com a faixa etária. Toda a organização foi feita com ajuda de pais voluntários, e a recreação foi feita por parentes próximos, como irmãos, avós e tios das crianças. Desta forma, mantiveram o custo de inscrição no congresso em um valor de 25 dólares por família, o que considero simbólico dentro da qualidade do congresso.

O ciclo de palestras foi iniciado pelo Hira Verma, fundador, pai de um menino com KS e presidente da Genespark. Nas suas breves palavras de boas-vindas, ele explicou que existe um conselho com 6 participantes. Estes conselheiros acompanham os esforços e pesquisas dos diferentes grupos de trabalho e tomam juntos algumas decisões estratégicas.

Além do Hira, integra esse conselho o Dr. Brian VanNess, que é pai adotivo de um jovem adulto com KS e é professor de genética e biologia celular Universidade do Minnesota. Assim ele tem uma visão de pai e pesquisador ao mesmo tempo e facilita “traduzir” algumas informações para nós. Com isso, o Dr. VanNess ficou encarregado de ajudar e moderar as perguntas dos pais aos pesquisadores. Outro integrante do conselho foi o primeiro palestrante da manhã, o Dr. Lodish.

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Palestras

As palestras ministradas ao longo da manhã de sábado tiveram um foco mais na parte médica e medicamentos do que em questões terapêuticas.

A primeira palestra, realizada pelo Dr. Harvey Lodish, era intitulada “Thoughts from our Scientific Advisory Board” em tradução livre: “Reflexões do nosso conselho científico”. O Dr. Lodish trabalha no Departamento de Biologia e Engenharia Biológica do renomado MIT e também no Whitehead Institute for Biomedical Engineering. Baseio-me no arquivo com os slides da apresentação para reproduzir o conteúdo da palestra:

O Dr. Lodish iniciou apresentando rapidamente a experiência que ele tem desde 1979 na fundação de empresas de biotecnologia, sendo que a empresa mais recente fundada por ele, a “Rubius” está neste momento abrindo seu capital na bolsa de valores americana. Ele também é membro no conselho do Hospital Infantil de Boston.

Explicou o Dr. Lodish que a Síndrome de Kleefstra (KS) não é exclusiva em sua raridade, estima-se que 25 a 30 milhões de americanos têm doenças raras. A condição nos EUA para uma doença ser classificada como rara é que existam menos que 200.000 pacientes nos EUA. Existem mais de 6.800 doenças raras catalogadas. Estima-se com isso que 350 milhões de pessoas sofram de doenças raras no mundo todo. Como Kleefstra, a maioria das doenças raras (80%) é de origem genética, e aproximadamente 50% das pessoas afetadas por doenças raras são crianças.

No entanto, a maioria das doenças raras não tem opções de tratamento apropriadas e 95 % das doenças raras não tem nenhum remédio aprovado pelo FDA (correspondente americano da ANVISA). Apenas 50% aproximadamente das doenças raras têm uma fundação dando suporte a pesquisas específicas.

Historicamente, grandes empresas farmacêuticas preferiam focar seus esforços no desenvolvimento de drogas para doenças mais comuns como diabetes, câncer ou doenças cardiovasculares. Mas já há atualmente muitas empresas pequenas de biotecnologia desenvolvendo remédios para doenças raras e fechando parcerias com grandes farmacêuticas. O desenvolvimento de curas para muitas doenças requerem intensa colaboração entre organizações não-lucrativas (laboratórios acadêmicos, hospitais de pesquisa, governos, organizações filantrópicas) e lucrativas (sociedades capitalistas, empresas de biotecnologia de pequeno ou médio porte, empresas biofarmacêuticas multinacionais).

As organizações não lucrativas objetivam uma ou mais possíveis terapias que funcionem bem em estruturas celulares e animais experimentais. As organizações que visam lucros têm como objetivo obter uma terapia aprovada pelo FDA para todos os pacientes.

Em seguida, o palestrante apresentou o exemplo de como a solução para outra doença Fenilcetonuria, levou à descoberta de um remédio e fundação de uma empresa chamada Rubius, já citada mais acima, explicando detalhes técnicos, que apesar de interessantes, não se relacionam com KS, pois apesar de as duas doenças terem origem genética, no caso da Fenilcetonuria, as células comprometidas são do sangue, enquanto que em KS se trata de células no cérebro.

Existe aqui ainda uma barreira técnica para KS: As doenças no sangue são mais fáceis de tratar, pois o acesso às células do sangue é mais fácil. Não se entende ainda exatamente como é o mecanismo de transferência entre corrente sanguínea e cérebro. Ou seja, não se tem certeza de como levar compostos até às células e saber que lá chegarem para dentro das células.

Dessa forma, KS está compreendida dentro de um grupo de doenças no sistema nervoso, assim como Síndrome de Dravet. A síndrome de Dravet por sua vez causa “epilepsia catastrófica”, resistente à drogas, atrasos cognitivos, do desenvolvimento e apresenta alta taxa de mortalidade. Essa síndrome tem uma incidência de 1:15.000-20.000 no mundo e é causada em 75% dos casos por uma haploinsuficiência em um gene chamado SCNI que codifica um “canal de sódio”. Haploinsuficiência, significa que apenas uma das duas cópias do gene é funcional.

A empresa TevardBio está atualmente desenvolvendo uma terapia genética para Síndrome de Dravet e outras doenças genéticas que apresentam haploinsuficiencia, podendo incluir a Sindrome de Kleefstra. Essa empresa foi fundada por dois executivos que têm filhas com Síndrome de Dravet.

O objetivo dessa empresa é identificar e desenvolver abordagens que poderiam potencialmente levar a um aumento permanente ou semi-permanente dos níveis de SNCI por uma das opções:

  1. Aumentar a expressão do alelo saudável SCNI; ou
  2. Consertar ou substituir a cópia do SCNI que sofreu mutação.

A empresa está se associando à líderes para desenvolverem abordagens de terapia genética e métodos de entrega no cérebro. O objetivo de longo prazo é desenvolver uma plataforma para desenvolver terapias genéticas para doenças do sistema nervoso central.

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Uma alternativa

Continuou o Dr. Lodish explicando uma descoberta chave feita pelo Dr. Jeff Coller em 2015/2016 que é: “a otimização do funcionamento do códon dita a estabilidade do mRNA, que por sua vez estabiliza os níveis de proteína e mRNA”. Aqui entendi que uma possível solução para “consertar bioquimicamente” a síndrome seria fazer a cópia do gene, que não sofreu deleção ou mutação, trabalhar mais ou melhor para produzir a mesma quantidade de proteínas que se produziria se não houvesse o problema genético.

Desta forma, apesar de não haver ainda uma solução, ficou claro durante a palestra, inclusive através de outros vários exemplos de doenças raras relatadas, que pode existir no médio prazo uma solução para KS. E mais importante: existem mecanismos para fazer essa solução se tornar comercializável. 

No final da palestra, foi perguntado por que não se citou a tecnologia CRISP como possível solução para KS. Explicando CRISPR de uma forma muito simplificada: é uma tecnologia nova que é utilizada para “editar” o DNA diretamente dentro de cada célula.

Explicou o Dr. Lodish que a tecnologia CRISPR é muito específica e pontual, e no caso de KS, trata-se de mutações e deleções dos mais variados tipos, tamanhos e posições. Desta forma, não seria viável desenvolver a CRISPR de uma forma a atender a todos os pacientes de KS e assim não é solução economicamente viável.

Continuarei na terceira parte relatando mais das palestra seguintes de sábado de manhã.

Caroline Tuttman Okasaki,carioca, esposa de um marido super parceiro, mãe de Rafael de 6 anos e Larissa de 4 anos. Larissa é portadora de Síndrome de Kleefstra. Atualmente, além de trabalhar e cuidar de nossa família, busco respostas para melhorar a vida das crianças com Kleefstra.

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